Existe um consenso, entre os economistas, de que para o país promover seu crescimento sustentável é necessário aumentar a poupança doméstica. Já li que: “O Brasil não forma poupança, não investe e não cresce”.

Em um texto da coluna “Opinião” publicado na IBEF News nº 152, de janeiro de 2011, comentei: “A poupança doméstica do País está em torno de 18% do PIB, sendo a poupança do governo, no passado recente, nula ou até negativa; situando-se em torno de 1,5%, atualmente”. Este quadro não sofreu alterações substanciais. Acrescentei: “Para a economia brasileira, é razoável supor que a relação capital/produto marginal seja de 3/1. Um exercício simples permite, com base neste parâmetro, avaliar os requisitos de investimentos para sustentar taxas de crescimento desejáveis para a economia brasileira. Se o Brasil quiser crescer 7% ao ano, significa dizer que tem que investir 21 unidades monetárias para gerar 7 unidades monetárias de produto”. A taxa atual de investimento brasileira é pífia comparada à de países mais dinâmicos, como os asiáticos, que chegam a investir consistentemente acima de 30% de seu PIB.

A relação entre poupança e investimento, sem dúvida, é tema de muitas controvérsias teóricas. Alguns economistas acreditam que a relação é ex-ante, ou seja, é necessário poupar antes de investir. Outros entendem que a relação é ex-post, isto é: o investimento realizado, através da renda gerada, cria a poupança. Dependendo do lado analisado, as soluções macroeconômicas a serem tomadas são excludentes. Explico-me: o equilíbrio macroeconômico diz que a oferta agregada deve ser igual à demanda agregada. Numa economia fechada e sem governo, as famílias têm dois destinos para sua renda: consumir ou poupar. Por outro lado, existem dois tipos de gastos na economia: consumo e investimento. Como a renda é igual à demanda, temos uma identidade em que o investimento é igual à poupança.

A politica atual do governo está pautada no estímulo ao consumo e no raciocínio ex-ante. A solução para aumentar a poupança é reduzir o consumo. Isso gera um conflito: consumir ou poupar? Já a visão ex-post leva em consideração que são os gastos que determinam a renda, e não o contrário. Sendo a poupança uma parcela da renda e o investimento um componente de gasto, infere-se que é o investimento quem determina a poupança. A poupança não financia o investimento. Quem financia o investimento é o crédito que o precede do ponto de vista temporal.

Posto isto, a agenda de desenvolvimento do governo deveria priorizar:

Realocar os gastos federais para investimentos, criando regras que permitam promover um ajuste fiscal mais forte e estrutural. Em outras palavras: reduzir o peso da dívida pública no mercado financeiro;

Ampliar o investimento público em infraestrutura e conceder serviços à iniciativa privada;

Aperfeiçoar o mercado de capitais, de modo a desenvolver financiamento de longo prazo;

Permitir o acesso de camadas mais amplas da população a ativos reais e financeiros. Classes de renda mais baixa têm de ter a possibilidade de acumular esses ativos. E o ativo real mais importante é, sem margem a dúvidas, o imóvel residencial.

Dessa forma, o governo tem muitas evidências da necessidade de alocar melhor seus recursos e das consequências disto para a economia, refletidas na taxa de juros, no câmbio e no investimento

Ex-ante ou ex-post, eis a questão!
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